Crônicas da Fono: Pedro e o microfone

Era dia de terapia do Pedro (5 anos) e era também dia de estimular o encontro consonantal “CR”. Na pasta do prontuário já estavam as palavras selecionadas para o bombardeio auditivo e as palavras com figuras para serem coladas no caderno e que serviriam de treino em casa (cravo, creme, criança, microfone e cruz). E assim se começava a terapia.

Colei todas as figuras no caderno e comecei:

– Pedro, preste atenção no que eu vou falar e também na figura. Repita comigo: “cravo”.

E o Pedro:

– Cavo.

E eu:

– Pedro, preste atenção na “pontinha da língua”. E o Pedro:

– Cravo.

E eu muito contente disse:

– Muito bem Pedro! E agora: “creme”.

E o Pedro:

– Creme. Isso… Papai passa no corpo. Fica cheiroso.

E eu continuei:

– Criança.

E o Pedro:

“Quiraça”

E agora repete comigo:

– Microfone.

E o Pedro esperto respondeu:

– Mais isso aqui não é um “micone”! “Micone” não tem olho e não tem boca!

– Mas esse tem Pedro! É de criança! Microfone de criança tem olho e boca. – tentei eu justificar o desenho do microfone que tinha selecionado para colar no caderno que tinha olho e boca!

E eu continuei e tentei associar palmas para ver se o Pedro conseguia perceber a divisão silábica da palavra “MI  CRO FO  NE”:

– Pedro, repete comigo “Mi” (palma), “Cro”, (palma), “Fone” (palma).

E o Pedro esperto logo falou:

– “Fone”. Isso não é “Fone” (apontando para a figura colada no caderno). É isso aqui o “Fone” (e pegou o fone que estava em cima da mesa).

– Sim Pedro, isso é um fone (apontei o fone). – tentei eu explicar.

E logo o Pedro:

– Não! Você que é “fone”.

– Sim Pedro, eu sou fon “ooooo”. – logo respondi fazendo o gesto com a mão apontando para a boca tentando explicar que o  “o” é mais “fechadinho” do que o “e” que é um som mais “aberto”.

Mas o Pedro não se contentou:

Sim, você é “fone”! Fone Pouana.

E assim se foi: de microfone para fone, fono, fone, Pouana… vamos jogar boliche?

Por |2018-10-13T17:17:52+00:0019 de outubro de 2018|Crônicas da Fono|2 Comentários

About the Author:

Graduada em Fonoaudiologia (2009), mestre (2011) e doutora (2016) em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto pela Faculdade de Medicina da UFMG. Realizou cursos no Centre de Linguistique Appliquée (Université de Franche-Comté) – França (2013). Participa anualmente de congressos internacionais, sendo o de 2015 em Monterey na Califórnia/EUA. Publicou estudos importantes nos periódicos Journal of Communication Disorders e Arquivos de Neuro-Psiquiatria. Atualmente participa do grupo de pesquisas em Neurofibromatoses do Hospital das Clínicas da UFMG. Tem experiência clínica nas áreas de audiologia e linguagem, com ênfase em processamento auditivo, treinamento auditivo, distúrbios de linguagem e aprendizagem. Currículo completo: http://lattes.cnpq.br/1978022333477136

  1. Monise Valim de Freitas 19 de outubro de 2018 at 13:40 - Resposta

    Muito nosso dia-dia!!! #amoserfono

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