Os sons que não se ouvem

Os sons que não se ouvem

 
Fonte Jornal Estado de Minas 12/06/2016

 

     Compartilharei hoje um texto que escrevi junto com o jornalista Augusto Pio e que foi publicado no Jornal Estado de Minas no Caderno de Saúde Bem Viver no dia 12/06/16. Segue o texto publicado:
 
 
Os sons que não se ouvem »

Estudos apontam que 5% das crianças em idade escolar têm alterações no processamento auditivo

Sintomas podem gerar dificuldades na fala ou para aprender e ser confundidos com dislexia

Augusto Pio – Estado de Minas Publicação: 12/06/2016
 
 

A audição é uma das vias de integração do indivíduo com o seu mundo, sendo responsável por inúmeros processos no seu desenvolvimento e em sua existência. A maneira como o sistema auditivo recebe, analisa e organiza aquilo que ouvimos é chamada de processamento auditivo. Este se refere à série de processos que envolvem a análise e interpretação do estímulo sonoro e pode ser definido como as operações mentais que o indivíduo realiza ao lidar com informações auditivas recebidas e que dependem de uma capacidade biológica inata e de experimentação no meio acústico. Porém, alguns tipos de doenças podem interferir nesse processo, como é o caso do distúrbio do processamento auditivo (DPA).

A fonoaudióloga, mestre e doutora em ciências aplicadas à saúde do adulto Pollyanna Barros Batista explica que, estudos feitos no ano passado, apontam que 5% das crianças em idade escolar têm alterações no processamento auditivo, resultando alterações de linguagem, dificuldades na fala ou para aprender, além das interações sociais. “O DPA, muitas vezes, é confundido com dislexia, transtorno do déficit de atenção, autismo e outras patologias”, ressalta Pollyanna, que, desde 2010, vem desenvolvendo pesquisas sobre o assunto e atualmente é autora do blog:http://pollyannabatistafonoaudiologa.blogspot.com.br.

De acordo com a American Speech-Language-Hearing Association (Asha), a mais conceituada associação de fonoaudiólogos dos Estados Unidos, o DPA é dificuldade apresentada pelo sistema nervoso auditivo, no processamento perceptual das informações auditivas, manifestadas pelo desempenho insatisfatório de uma ou mais habilidades auditivas. “São várias as causas do DPA em crianças, incluindo atraso maturacional, anomalias neuroanatômicas, lesões encefálicas ou alterações funcionais (sem lesão específica ou diagnosticada). Segundo a British Society of Audiology (2011), o DPA pode ser resultante de um evento pós-natal (trauma neurológico ou infecções), ocorrer devido a uma perda auditiva condutiva (resultante de otites repetitivas ou otosclerose), ou pode ser detectado na infância em indivíduos com audiometria normal e estes não apresentarem nenhuma etiologia ou potenciais fatores de risco”, esclarece Pollyanna.

“Já o DPA em adultos pode ser ocasionado por perdas auditivas não tratadas ou aquelas em que o indivíduo demora para se reabilitar. A demora para começar a usar aparelho auditivo, por exemplo, pode levar à doença.” Mas como identificar o DPA? Pollyana explica que, caso o indivíduo apresente a associação de algumas das queixas, é prudente procurar um otorrinolaringologista e um fonoaudiólogo especializado nessa área, para que providencie, além de avaliação das manifestações apresentadas, audiometria (exame de audição, que, geralmente, tem resultado normal nesses casos) e exame específico das habilidades auditivas (avaliação do processamento auditivo).

 

“Em casos de DPA diagnosticado, em virtude do impacto de alterações na audição, na comunicação e no sucesso acadêmico, é necessária intervenção rápida, por meio de programas baseados no treinamento auditivo e na melhora do sinal acústico, além do emprego de estratégias de linguagem, cognitivas e metacognitivas, os quais promoverão a plasticidade e a reorganização cortical. A estimulação das habilidades auditivas, que deve ocorrer no ‘treinamento auditivo’, é fundamentada nos princípios da neuroplasticidade, ou seja, na possibilidade que o cérebro tem de criar conexões como resposta às solicitações a que é submetido”, ressalta a especialista.



DIAGNÓSTICO

Pollyanna explica que, muitas vezes, é difícil perceber os sintomas do DPA. “Estes são mais evidentes na idade escolar, durante e após a alfabetização. É nessa fase que a criança recebe aumento da demanda linguística e o ambiente de aprendizado passa a ser menos controlado, tem mais competição. Por isso, a maior parte das crianças faz o diagnóstico correto após os 7 ou 8 anos. Alguns casos vêm para a avaliação com 12, 13 ou até 15 anos e com queixas de dificuldades escolares há anos. Como os sintomas são parecidos, o quadro pode se confundir ou estar presente concomitantemente com atrasos de linguagem, dislexia e déficit de atenção. Em adultos e idosos, em geral, o diagnóstico é feito após uma adaptação de prótese malsucedida ou com baixo rendimento, nos casos em que mesmo com o uso do melhor aparelho possível, o indivíduo ainda se queixa de dificuldade de escuta.”

 

No caso de crianças e adolescentes, é preciso ficar atento ao seguinte: se a pessoa sente incômodo com ruído ou sons intensos, atrasos ou distorção na fala, como a produção dos sons “r” e “l”, não conseguir se lembrar das instruções recebidas, desatenção, dificuldades em aulas de música, na leitura fluente de um texto, na escrita com respeito às regras de pontuação, no reconhecimento sonoro de uma sílaba átona ou tônica, cometer muitos erros gramaticais, inverter letras ao escrever (b, d, p, q), troca letras com sons parecidos (p/b, t/d, f/v, m/n), ter letra feia, não entender bem as piadas e apresentar baixo rendimento escolar. Em adultos, o incômodo com ruído ou sons intensos, dificuldade para identificar sons verbais e não verbais na presença de outros sinais acústicos competitivos (ruído), problemas para compreender sons verbais acusticamente incompletos e problemas para recordar a ordem de ocorrência dos eventos acústicos.

 
 
  
 

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